Quando alguém me pergunta o que acontece numa Cerimónia do Cacau, dou por mim a sorrir e a pensar “É difícil responder… Cada encontro é diferente e, por isso, nunca consigo descrevê-lo da mesma forma”.
Talvez a melhor resposta seja esta: a cerimónia começa muito antes de nos sentarmos em círculo.
Começa quando preparo o cacau. Ainda hoje, quando o aroma do cacau começa a espalhar-se pela cozinha, sinto a mesma tranquilidade que senti na primeira vez que o preparei para uma cerimónia.
É um momento que vivo com tempo e intenção. Enquanto a bebida ganha forma, também eu vou entrando no espaço da cerimónia. Penso na energia do grupo, na intenção que nos reúne e na medicina da planta que nos irá acompanhar. É um momento de conexão, quase silencioso, que faz parte do próprio ritual.
Acredito que aquilo que colocamos em cada gesto também chega às pessoas que o recebem.
Foi assim que aprendi a relacionar-me com o cacau.
Muito antes de se tornar conhecido em diferentes práticas de desenvolvimento pessoal, o cacau já ocupava um lugar especial em diversas culturas da América Central e da América do Sul. Era uma planta respeitada, utilizada em momentos de celebração, de encontro e de reflexão. Não porque oferecesse respostas, mas porque ajudava a criar o espaço necessário para que cada pessoa pudesse encontrá-las dentro de si.
Quando falamos de medicina, no contexto do xamanismo, falamos precisamente disso. Da capacidade que uma planta tem para nos recordar algo essencial.
O cacau não altera a consciência nem nos leva para longe de nós. Pelo contrário. Convida-nos a permanecer. A respirar mais devagar. A sentir o corpo. A observar aquilo que, no ritmo dos dias, tantas vezes passa despercebido.
É uma medicina subtil.
E talvez seja essa delicadeza que tanto me toca!
Ao longo da cerimónia, diferentes práticas vão surgindo naturalmente. O tambor ajuda-nos a regressar ao corpo. A dança convida o movimento a ocupar o lugar onde antes existia tensão. A meditação guiada cria um tempo de recolhimento, enquanto a música acompanha o grupo e sustenta o ambiente da cerimónia.
Também gosto de abrir espaço para a roda de partilha. Nem sempre porque seja necessário falar, mas porque, quando alguém encontra palavras para nomear aquilo que vive, cria-se muitas vezes uma ponte para quem está ao lado. E isto é tão bom!
Há encontros em que o Oráculo nos oferece uma mensagem para integrar. Outros convidam à escrita, permitindo que aquilo que foi sentido encontre também um lugar no papel. E, quando a intenção da cerimónia o justifica, o fogo junta-se ao círculo como símbolo de transformação, libertação, purificação e renovação.
Nada disto acontece por obrigação.
Nenhuma cerimónia segue um guião rígido.
Cada grupo traz consigo uma energia diferente e cada encontro pede o seu próprio ritmo. Aprendi, ao longo dos anos, que o mais importante não é cumprir uma sequência de práticas, mas estar disponível para acompanhar aquilo que aquele momento precisa de ser.
Talvez seja essa a maior aprendizagem que o cacau me trouxe.
Confiar.
Confiar na planta.
Confiar no grupo.
Confiar no tempo.
E confiar que, quando criamos um espaço seguro, cada pessoa encontra exatamente aquilo de que necessita.
Vivemos dias em que tudo parece acontecer depressa. Saltamos de tarefa em tarefa e habituámo-nos a acreditar que parar é perder tempo. A Cerimónia do Cacau recorda-nos precisamente o contrário.
Que existe sabedoria na pausa.
Que nem tudo precisa de ser resolvido.
E que, por vezes, basta estarmos verdadeiramente presentes para que algo dentro de nós comece a transformar-se.
Se, ao leres estas palavras, sentiste curiosidade ou simplesmente o desejo de te oferecer um tempo diferente, será um gosto receber-te numa próxima Cerimónia do Cacau.
O resto, deixamos que a própria experiência revele.

