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Há uma ideia que se instalou discretamente na forma como vivemos. Acreditamos que, para cuidar de nós, precisamos de encontrar tempo. Um tempo que, quase sempre, parece existir apenas num futuro ideal: quando o trabalho acalmar, quando os filhos crescerem, quando as preocupações forem menores ou quando a vida deixar de ser tão exigente.
Enquanto esse momento não chega, vamos adiando aquilo que, no fundo, sabemos que nos faz bem.
É curioso observar que isto acontece em tantas áreas da vida, mas torna-se particularmente evidente quando falamos de espiritualidade. Quantas vezes começamos uma prática com entusiasmo, convencidos de que, desta vez, será diferente? Meditamos durante alguns dias, lemos um livro que nos inspira, fazemos um pequeno ritual, escrevemos num diário. Sentimo-nos mais presentes, mais tranquilos, mais próximos de nós. Depois, quase sem darmos conta, a rotina volta a ocupar todo o espaço e aquilo que nos fazia bem fica para trás.
Quando isso acontece, é fácil concluir que nos faltou disciplina ou força de vontade. Durante muito tempo, também pensei que essa fosse a explicação. Hoje olho para esta realidade de outra forma.
A espiritualidade não floresce porque somos disciplinados. Floresce quando encontra um lugar na nossa vida.
A natureza ajuda-nos a compreender isto com uma simplicidade desarmante. Nenhuma árvore cresce porque fez um esforço extraordinário. Cresce porque encontra as condições certas: a terra que a sustenta, a água que a alimenta, a luz que a orienta e o tempo necessário para se desenvolver. Se lhe faltar um destes elementos, o crescimento torna-se mais difícil. Não porque a árvore tenha falhado, mas porque o equilíbrio foi interrompido.
Talvez connosco aconteça o mesmo.
Muitas vezes procuramos grandes transformações quando, na realidade, precisamos apenas de criar espaço para pequenos gestos que se repetem com naturalidade. Uma meditação de dez minutos. Um momento de silêncio antes de começar o dia. Um passeio na natureza sem destino nem pressa. Uma pausa para respirar profundamente antes de responder a uma situação difícil.
São gestos simples. Tão simples que, por vezes, duvidamos da sua importância. No entanto, é precisamente essa continuidade discreta que vai moldando a forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com a vida.
Há outro aspeto que me parece importante e de que falamos pouco.
Vivemos numa cultura que valoriza o extraordinário. Procuramos experiências intensas, retiros transformadores, momentos que nos façam sentir que tudo mudou de um dia para o outro. Essas experiências podem ser profundamente importantes e abrir portas dentro de nós. Mas, se não encontrarem lugar no quotidiano, acabam por se tornar apenas uma bonita recordação.
A verdadeira transformação acontece quando aquilo que compreendemos começa, pouco a pouco, a fazer parte da forma como vivemos.
É por isso que gosto tanto da imagem dos ciclos da natureza. Não há pressa na primavera para chegar ao verão. O inverno não resiste quando chega o momento de partir. Cada estação oferece aquilo que lhe pertence e prepara, silenciosamente, a seguinte. Talvez a espiritualidade seja mais parecida com este movimento do que com uma sucessão de experiências extraordinárias.
Não precisamos de estar constantemente à procura de algo novo. Muitas vezes, basta regressar ao essencial.
Também acredito que ninguém cresce completamente sozinho. Há momentos em que precisamos apenas de um espaço que nos recorde aquilo que é importante. Um lugar onde possamos parar, refletir e voltar a centrar-nos, sem a pressão de ter de fazer mais ou de sermos melhores.
Quando existe esse espaço, a prática deixa de ser uma obrigação. Passa a fazer parte da vida, da mesma forma que aprendemos a respeitar os ciclos da natureza ou a reconhecer o valor de um momento de silêncio.
Talvez seja essa a maior aprendizagem: compreender que a espiritualidade não é mais uma tarefa para acrescentar à agenda. É uma forma de estar. E essa forma de estar constrói-se aos poucos, através de pequenas escolhas que, repetidas ao longo do tempo, acabam por transformar a relação que temos connosco e com o mundo.
Um convite
Se sentes vontade de aprofundar esta forma de viver, talvez não precises de procurar mais informação. Talvez precises apenas de um espaço onde possas regressar, mês após mês, ao essencial.
O Clube Sabedoria Ancestral nasceu precisamente com esse propósito. Ao longo do ano, acompanhamos os ciclos da natureza, as luas e a Roda Medicinal através de reflexões, meditações, práticas corporais e pequenos rituais que ajudam a integrar esta sabedoria na vida quotidiana.
Mais do que aprender novos conceitos, é um convite para viver cada estação com maior presença e consciência, respeitando o ritmo único de cada pessoa.
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